sábado, 29 de janeiro de 2011

O algodão na economia seridoense (1880-1915)

(Por Muirakytan K. de Macêdo – Professor do Curso de História do CERES – Campus de Caicó)

Nos sertões, a agricultura desenvolveu-se à sombra das atividades pastoris, sem se salientar como excedente para trocas comerciais consideráveis. Somente com a grande seca de 1845 foi que, com a dizimação de quase todo rebanho, as culturas agrícolas nessa área adquiriram alguma visibilidade. Nesse contexto, começa a sobressair-se o cultivo do algodão e principalmente uma variedade típica do Seridó, que ocuparia um lugar de destaque na economia estadual quando o açúcar descrevia sua curva produtiva descendente a partir da década de 1880 e seria superado pelo algodão em 1905. "O algodão não seguiu a mesma trajetória que o açúcar, pois o fim da fase áurea da exportação para o mercado externo, da década de 1860, não significou sua estagnação ou retrocesso; pelo contrário, foi em anos posteriores a essa fase que se expandiu o cultivo pelo sertão norte-rio-grandense, de uma variedade de algodão característica do meio - o algodão mocó ou algodão seridoense" (TAKEYA: 1985, p. 33).

Embora prioritariamente voltado para o mercado interno em favor das indústrias têxteis nacionais, o algodão norte-rio-grandense também encontrava colocação no mercado estrangeiro. O crescimento do volume desse comércio, no entanto, era contido pela baixa qualidade de sua fibra, incompatível com a padronagem dos tecidos mais elaborados, fato que o fazia pouco competitivo nos negócios de exportação. Características inferiores contribuíam para que ele se amoldasse à indústria têxtil nacional que principiava produzindo tecidos de baixa qualidade com os quais se afinavam o algodão produzido no RN.

Somente o algodão "mocó", de fibra longa, poderia ocupar esse lugar de excelência no mercado exportador internacional, posto que se destinava à confecção de tecidos finos.

A princípio duas variedades de algodão eram plantados no RN: o arbóreo ("mocó" ou "Seridó") e o herbáceo. O algodão "mocó" foi a variedade que melhor se adaptou aos sertões: por suas raízes profundas, era mais resistente às secas; por seu vigor, era uma variedade mais infensa às pragas e ,por outro lado, produzia até por 8 anos. Em suma, era muito mais vantajoso que o herbáceo, que tinha um ciclo vegetativo muito curto - geralmente um ano e, além disso, mais suscetível a pragas.

No entanto, orientado para o mercado interno, o algodão nordestino perderia paulatinamente, a partir de meados da década de dez, sua posição hegemônica como principal matéria-prima consumida pela indústria têxtil do Sudeste.

As crises de oferta da fibra nordestina estariam ligadas, por um lado, às devastadoras secas que atingiam impiedosamente as lavouras sertanejas e, por outro, a uma redefinição da produção agrícola paulista, que em 1918, com a geada que destruiu os cafezais e, posteriormente, o retraimento abissal do cultivo do café com a crise de 1929, terminaram por reorientar largos espaços agrícolas para a cotonicultura.

Outras variedades, como o Sea-Island e o Upland, americanos, e o Jumel, egípcio, foram testadas no Rio Grande do Norte não sem antes despertar desconfiança naqueles que pensavam o desenvolvimento regional a partir da produção do puro algodão "mocó" ou "Seridó". Juvenal Lamartine de Faria refletindo sobre a inconveniência da importação de variedades exóticas no sertão, na Conferência algodoeira de 1915, assim se expressava: "não vejo nenhuma vantagem na importação de segmentos estrangeiros, principalmente americanas, donde poderemos importar também parasitas, ainda desconhecidos entre nós como o terrível Boll Weevil ... No nordeste brasileiro que como disse, tem que ser o centro de nossa produção algodoeira, reputo erro, substituir por uma variedade estrangeira, quase toda anual,o nosso algodão mocó - verdadeira lavoura das regiões secas" (FARIA: 1915, p. 226)

As suspeitas de Juvenal Lamartine tinham fundamento se levarmos em conta a praga da lagarta rosada - "terrível polvo [que] distende seus tentáculos sobre alguns dos nossos destemidos e empreendedores agricultores" (O seridoense,24/05/1918) - que chegaria a dizimar 2/3 das lavouras nordestinas e teria sido, possivelmente, embarcada do Egito, com os lotes de sementes de algodão importadas daquele país, entre os anos de 1910 e 1913. Além de pragas e secas, o algodão foi fragilizado geneticamente pela hibridação natural entre o algodão mocó e aquelas variedades alienígenas.

Enquanto deteve a reputação de algodão de primeira qualidade, o Seridó foi celebrado, seja pelos intelectuais da elite seridoense, seja em eventos fora do Nordeste. Registrou o Dicionário Geographico e Etnographico do Brasil em 1922: "O produto é de ótima qualidade. Na Exposição Nacional de 1908, o da zona do Seridó obteve o grande prêmio e o de toda a região sertaneja alcança sempre cotações superiores nos mercados internos e externos". Esta variedade "mocó" ou "Seridó" teve um dos seus mais fortes e propositivos defensores em Juvenal Lamartine. A partir dele poderemos perceber a montagem do espaço algodoeiro no discurso regionalista seridoense.

Favor citar da seguinte forma:

MACÊDO, M. K. de (1998). O algodão na economia seridoense. História do RN n@ WEB [On-line]. Available from World Wide Web:

Referências Bibliográficas

FARIA, J. L. de. O algodão no Rio Grande do Norte. In: SOCIEDADE NACIONAL DE AGRICULTURA – PRIMEIRA CONFERÊNCIA ALGODOEIRA. 1915, São Paulo. Annaes... São Paulo: s/e, 1915.

MACÊDO, Muirakytan K. de Macêdo. A penúltima versão do Seridó – Espaço e História no regionalismo nordestino. Natal, 1998. 200 p. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O seridoense, 24/05/1918

TAKEYA, D. M. Um outro Nordeste - o algodão na economia do Rio Grande do Norte: 1880-1915. Fortaleza: BNB/etene, 1985.

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